Ana Junqueira por Ana.

                                                                            A importância do aprendizado e inspirações na fotografia.

Eu conheci a Ana através da minha melhor amiga, Júlia que é prima dela. Na época ela tinha acabado de voar solo na fotografia e me chamou pra fazer uma assistência, 3 anos e meio depois aqui estou.
A Ana virou mais do que uma mentora pra mim, virou uma amiga. 
Com ela eu mudei o meu olhar, ela foi me ajudando a encontrar esse olhar que estava adormecido em mim, e sempre comentava com ela que, apesar de já estar no ramo a quase 8 anos, foi só depois que a conheci que realmente pude aprender com alguém que ama o que faz, e isso fez toda a diferença.
Foi e é uma experiência super rica na minha vida ter ela ao meu lado na minha caminhada rumo ao meu descobrimento. E eu sou eternamente grata pelos ensinamentos mas, principalmente, pelo ombro e pela amizade dela.
Eu me mudei a duas semanas atrás pra Nova Iorque e na nossa última sessão de fotos juntas antes da minha viagem, tivemos esse bate papo no carro a caminho do local.

P. Como é a sua história com a fotografia?
R. Na verdade, eu sempre tive uma admiração por fotógrafos, desde muito cedo.
Aos 16 anos de idade eu pedi pro meu pai uma câmera pra fotografar, e ele me deu uma câmera profissional, uma Zenith, uma câmera alemã, toda manual ainda da época do analógico, e a partir dai eu comecei a fotografar por feeling mesmo, fotografava em casa, eu pegava a minha irmã que é 3 anos mais nova que eu e a colocava em frente a um varal de lençóis e ia fotografando ela, fotografava coisas, plantas, enfim, comecei a explorar a fotografia com aquela câmera que o meu pai me deu. Depois disso resolvi fazer um curso de fotografia, fiz um curso livre na escolar Guignard, um curso que foi ótimo! Foi realmente onde despertou o meu interesse pela fotografia. Como ainda era época do analógico, aprendi a revelar e a ampliar e aquilo foi fascinante pra mim. Então depois desse curso livre da Guignard, eu entrei pro jornalismo, curso de comunicação da PUC. No curso de jornalismo você tem dois períodos de fotografia, foi aí que me apaixonei mais ainda, e dentro da faculdade eu vi que tinha uma oportunidade de ser assistente da Márcia Charnizon que na época eu não tinha noção de quem era, só sabia que era uma fotografa que fazia casamentos e ai fui. No dia que fiz a entrevista ela perguntou se poderia começar no dia seguinte, a gente teve uma empatia de cara e foi aí que comecei a trabalhar com a Márcia.
Trabalhei muito tempo com ela, comecei como assistente, fui assistente dela muitos anos e devagarinho comecei a fotografar e a fotografia entrou de vez e nunca mais saiu da minha vida.


P. Você falou que começou como assistente, você acha que foi fundamental pra você?
R. Foi primordial pra mim começar como assistente e eu acho que é primordial pra qualquer pessoa. Eu acho que na assistência é onde que você realmente faz a escola do aprendizado de como se tornar um fotografo. É na observação, é na busca da luz, é entender como funciona funciona a luz, a fotografia e a postura do fotógrafo. É muito mais uma escola de observação e de experimentação, é aonde você realmente está ali sendo direcionado ao aprendizado.
Eu acho que o assistente é primordial pro fotógrafo e vice versa. Acho que a importância de se fazer uma assistência, de ter uma escola de assistente é o aprendizado! Você aprende muito, acho que a troca é gigantesca. Pra mim é primordial ou pra qualquer fotógrafo passar pela assistência.



P. Você passou pela assistência e agora como você se vê do outro lado, passando seu ensinamento pro assistente e observando o crescimento dele. Como é essa troca no seu olhar agora de fotógrafa?
R. Maravilhoso! Porque você vê, você acompanha um crescimento visível, então, até por eu ter tido essa escola, ter tido essa chance de ser assistente, é muito bom passar isso pra alguém hoje e poder fazer parte de um aprendizado de uma outra pessoa. E cada vez mais a gente vai acumulando aprendizado e é importante dividir, eu acho que a gente tem que dividir esse aprendizado, acho que a gente só tem a acrescentar pra gente e pro outro, então hoje eu tenho o maior prazer em ensinar.

P. Como que você caiu nesse tipo de fotografia que você faz, que você já é conhecida por ela? Foi uma coisa que você já gostava ou você foi se descobrindo ali?
R. Na verdade a primeira fotógrafa que eu trabalhei, que foi a Márcia, que fazia exatamente esse tipo de trabalho que é o lifestyle, o casamento, e foi ali que eu descobri muito prazer, engraçado porque eu  nunca pensei em fazer outro tipo de fotografia, eu nunca pensei em fazer outro tipo de assistência com outro tipo de fotógrafo, eu me encontrei mesmo, eu tive muito prazer nesse tipo de fotografia, nunca tive vontade de fotografar moda, nem publicidade, nem fotos de produtos. Realmente esse tipo de foto é o tipo de foto que eu tenho muito prazer em fazer, porque eu acho que é um tipo de trabalho que você conhece muitas pessoas, conta muitas histórias, você entende melhor o outro, acho que vai alem da fotografia, é um trabalho onde você realmente se relaciona com diferentes pessoas, então isso me da muito prazer, essa troca também de contar histórias de diferentes pessoas é uma das coisas que essa fotografia me proporciona e que me da muito prazer. 

P. Quem te inspira na fotografia?
R. Acho que não existe uma pessoa que me inspira, acho que são varias coisas que inspiram na vida, eu procuro me inspirar não só com fotos e trabalhos de outros fotógrafos, eu procuro me inspirar com cinema, com música, o que aquela musica me remete, o filme, aquela fotografia que eu estou vendo, o tipo de cor, o tipo de cena, então acho que qualquer tipo de arte me inspira pro meu trabalho. Muito visual, porque o cinema, a pintura, até mesmo imagens de outros fotógrafos me inspiram, mas eu acho que varias coisas me inspiram.
Mas realmente desde o inicio quem foi meu grande, vamos dizer, ídolo na fotografia, foi e ainda é o Sebastião Salgado. Muito porque é um fotógrafo que retrata o ser humano, e é exatamente o que eu faço, claro que como uma outra vertente, um outro objetivo, mas eu acho que os retratos do Sebastião Salgado, a luz do Sebastião Salgado e a própria pessoa de quem ele é, é um cara que eu realmente admiro muito na fotografia. Mas eu acho que a inspiração está em todo lugar.
Eu me inspiro muito com pequenas coisas do dia a dia, as vezes assistir a um pôr do sol e aquela luz me inspira, ou, abrir o quarto e ver uma luz de janela entrando na cama , imaginar aquela luz batendo em uma pessoa, num bebê.. então eu tenho inspiração em pequenas coisas do meu dia.


P. Pra quem não sabe, a Ana passou 3 anos em São Paulo, trabalhando com cinema. Conta um pouco dessa sua experiência:
R. Foi maravilhoso trabalhar com cinema por vários aspectos, mas eu acho que pra fotografia me trouxe muita coisa. Eu trabalhei em produção de arte no cinema, o que é essa produção de arte? E toda a parte de estética e visual de um filme, então é todo o pensamento que a estética vai falar por si só.
A parte de enquadramento, de composição, de luz, isso tudo é totalmente fotografia, é totalmente estética, é totalmente construção da imagem. Então a produção de arte num filme tem muito a ver com a fotografia. Aprender a ter essa preocupação com enquadramento, com cores, com luz, isso tudo é a linguagem da fotografia, e foi super importante, foi super válido.
Eu fiz um filme de época, que é um filme que exige mais de uma produção de arte. E a experiência em cinema é realmente mágica! Todo mundo que já trabalhou com cinema sabe o que eu estou falando, é uma experiência completamente diferente. 
Então estar em SP com os profissionais que eu estava, experientes, um diretor super renomado, um diretor de arte renomado, eu aprendi demais, e ganhei muito com o meu olhar na estética da fotografia dentro do cinema, foi muito bom.

 

P. Você tem alguma preparação pra quando vai fotografar?
R. Não, não existe uma preparação, não me preparo de maneira nenhuma. 
Na verdade eu vou completamente aberta a conhecer aquelas pessoas a entender quais histórias elas tem pra me contar. Eu vou com o meu equipamento, o coração e a mente aberta e ali naquele momento que eu conheço aquela pessoa, que eu começo a conversar, que eu começo a entender quem são aquelas pessoas, o que esta passando? Eu sempre gosto de escutar historias da gravidez, de onde mora, tem quantos filhos, eu sempre gosto de conversar, entender aquela história e ali a intuição vem, não só da historia daquela pessoa mas do local que a gente está, de observar a luz. Então eu deixo a intuição falar no momento da sessão. Mas eu acho que é importante eu entender e escutar a história, o que aquela pessoa tem pra me mostrar ? O que ela quer mostrar? Que tipo de emoção está tendo ali? é um filho desejado? Foi um filho que foi difícil ter? ´E uma família que passou por algum problema,? Entender qual é a comemoração daquilo. 
Isso e que vai me dar a intuição de fazer aquela foto, aquele retrato.


P. Muita gente acha que é importante ter uma locação muito bonita pra fotografar, como você vê isso?
Você acha que isso é o fundamental?

R. Não, na verdade pra mim, hoje, o fundamental é a luz! Independente de onde eu esteja! Pode ser numa garagem suja com paredes sujas de graxa e tem uma luz maravilhosa entrando, eu vou fazer alguma coisa ali. Pra mim é assim, eu acho no lugar, não interessa se é um apartamento de uma sala e um quarto ou se é uma casa gigantesca, se é um sitio ou uma fazenda, a luz é a primeira coisa que eu reparo.
A luz vai me direcionar pra onde vou fotografar, então de maneira nenhuma a beleza do lugar vai comandar, em primeiro lugar eu sempre observo a luz,


P. Nesses anos que trabalho com você, observei muito essa sua relação com a luz. Ela veio com o tempo? Como foi?
R. Veio com o tempo e de uma forma muito natural. Eu acho que eu tenho uma facilidade de enxergar a luz e captar a luz, que é muito de fotografo, é uma capacidade de quem é fotógrafo de verdade.
Essa relação com a luz, a gente que é fotografo acaba tendo que ter essa intimidade e isso pra mim veio de uma forma muito natural, eu percebo que tenho muita facilidade em chegar num lugar e enxergar aquela luz e colocar ela na imagem do jeito que eu quero, então esse domínio da luz veio de uma maneira muito natural, eu tenho essa facilidade mesmo.


P. Onde você se vê daqui a 5, 10 anos?
R. Nunca parei pra pensar sobre daqui a cinco anos (risos). Eu não penso pra frente, de verdade, eu não sou uma pessoa de planejar o futuro, de ficar assim, acho que pode ser até um pouco um defeito meu, de não tentar construir um futuro. Eu vivo muito agora! Realmente não paro pra pensar aonde vou estar em 5 anos, não faço esse exercício, não consigo. (risos)

P. Recado pra quem está começando na fotografia e quer seguir esse caminho:
R. Eu acho que na verdade a pessoa tem que estar aberta a todo tipo de experiência até pra se entender qual é a sua fotografia.
Porque a fotografia tem vários caminhos, varias vertentes, tem vários mercados. Então é estar aberto a descobrir qual é a fotografia que te da mais prazer, aonde você realmente se identifica.
Eu acho que hoje em dias as pessoas tendem muito a copiar uns aos outros, a ficar vendo só foto, eu acho que a inspiração de foto está em outro lugar, é aquilo que eu falei, ficar observando a luz quando se esta passando numa estrada, é ver um filme e entender aquele enquadramento, observar como que foi feita aquela construção daquela imagem, se inspirar com música, com arte em geral. Acho que é parar de ficar olhando pro trabalho do outro fotografo pra tentar fazer igual, acho que as pessoas tendem muito a fazer isso e também é descobrir a própria essência, quem sou eu? O que eu quero falar na minha fotografia? O que eu quero contar? O que eu gosto? Onde está minha assinatura? Onde que está a minha identidade visual na fotografia? Claro que esse é um caminho a ser trilhado, você descobre com o tempo, até chegar na sua fotografia, na sua identidade. Mas eu acho que é prestar atenção no seu interior, no seu feeling, no que você gosta de ver, que tipo de filme você gosta de ver, que tipo de coisa te interessa, que tipo de musica, e chegar na sua fotografia a partir da sua essência, é olhar pra dentro, e não ficar olhando pro outro.
 

P. Falando nisso, hoje em dia as pessoas veem mais a fotografia como um negócio do que uma arte, é mais ou menos nesse sentido que você quis dizer? 
R. Acho que sim, acho que as pessoas veem muito glamour em ser fotografo, acha que ainda existe esse glamour, e não consegue muitas vezes olhar pra terceira margem do rio, ficam ali fazendo aquilo que já foi feito, imitando alguém ou se inspirando muito em outra pessoa e realmente não consegue dar um passo a mais e fazer o diferente e fazer o seu olhar aparecer ali.  
Eu acho que a busca da fotografia tem que ser pela arte e não pelo mercado, é claro que uma coisa é conseqüência da outra, se você é uma pessoa diferente naquilo que você faz, isso vai ser valorizado, as pessoas vão perceber, e vão querer aquilo. Não adianta ficar todo mundo massificado fazendo o mesmo tipo de trabalho porque tem mercado, o valor eu acho... é que cada um tem o seu olhar e cada um tem que explorar sua identidade. 


Depois do nosso bate papo, (vivemos muitas aventuras nesses 3 anos e meio, quantas conversas já tivemos no carro..) chegamos no destino para a sessão de fotos e mais uma vez pude observar e aprender.
Sou #teamanajunqueira eternamente. Saudades.

Obrigada Ana.